Quem vê cara, vê tudo.

Você consegue identificar um sorriso forçado, lágrimas de crocodilo ou qualquer outra emoção fingida, mesmo em pessoas desconhecidas? Com um pouco de treino isso é perfeitamente possível. A maioria das nossas emoções gera sinais característicos involuntários, cuja função é justamente mostrar aos outros como estamos nos sentindo – mesmo quando tentamos disfarçá-los. É o que mostra o psicólogo norte-americano Paul Ekman, considerado o maior especialista em expressões faciais, no livro “Emotions Revealed” (Emoções Reveladas), recém-lançado nos Estados Unidos e ainda sem tradução no Brasil.

Após pesquisar o tema por 40 anos entre culturas diferentes, como EUA, Japão, Brasil e Nova Guiné, Ekman endossou a teoria proposta pelo inglês Charles Darwin (1809-1882) no livro “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, publicado em 1872. A obra diz que algumas emoções, e as expressões relacionadas a elas, são universais, ou seja, todas as pessoas já nascem capazes de fazê-las e identificá-las. Por isso são chamadas de primárias. São elas: raiva, nojo, tristeza, alegria, medo, surpresa e desprezo. Para cada um desses sentimentos, Ekman listou os movimentos musculares do rosto e, em alguns casos, até mesmo alterações fisiológicas que os denunciam.

As representações mentais das situações que desencadeiam cada emoção também são inatas. As hipóteses mais aceitas são de que todo ser humano tem armazenado na memória um esboço geral dos eventos que estimulam cada emoção. Para causar medo, por exemplo, o tema seria qualquer tipo de ameaça de ferimento. Para tristeza, uma perda importante.

Que cara é essa?

Para saber o que uma pessoa está sentindo, basta prestar atenção aos sinais enviados pela face

1. TRISTEZA

Os cantos internos das sobrancelhas se levantam e se encostam – um dos mais confiáveis sinais, pois poucos conseguem fazer o movimento voluntariamente
Surge uma ruga vertical na testa, entre as sobrancelhas
As pálpebras superiores ficam levemente caídas
Os cantos dos lábios se inclinam para baixo
As bochechas se levantam e produzem marcas de expressão que vão do redor das narinas até os cantos exteriores dos lábios. O músculo que levanta as bochechas produz essas marcas e levanta a pele abaixo dos olhos, que ficam mais estreitos
Sinais físicos e fisiológicos: há perda da força muscular e a postura fica encurvada

2. RAIVA
Os lábios se apertam levemente e ficam mais estreitos – um dos mais importantes sinais, muito difícil de inibir e denuncia a raiva mesmo quando não há outros indícios
A boca fica aberta e os lábios em forma de retângulo
As sobrancelhas se aproximam e se abaixam em direção ao nariz
Os olhos ficam bem abertos e as sobrancelhas se aproximam das pálpebras superiores
Sinais físicos e fisiológicos: há um impulso de se aproximar do que ocasionou
a emoção. A circulação sanguínea nas mãos aumenta, tornando-as mais quentes
e preparando-as para golpear o objeto da raiva. A transpiração fica intensa e a pessoa ofegante. A sensação inclui sentimento de pressão, tensão e calor
A freqüência cardíaca e a pressão sanguínea aumentam. O rosto fica ruborizado
Se a pessoa não está falando, há uma tendência em ranger os dentes e empurrar o queixo para frente
3. MEDO
As pálpebras superiores se levantam e as inferiores ficam levemente contraídas
As sobrancelhas se levantam e se juntam
A testa levanta e surgem rugas horizontais
O queixo fica caído e os lábios puxados horizontalmente
Sinais físicos e fisiológicos: a circulação sanguínea aumenta nas pernas, deixando as mãos geladas. Os músculos das pernas se preparam para correr
A transpiração aumenta e a pessoa fica ofegante. Há um impulso de ficar imóvel, para não ser detectado, ou correr para evitar o ferimento
4. ALEGRIA
Os cantos da boca são puxados para os lados e para cima (sorriso)
A principal diferença entre o riso forçado e o espontâneo é a contração do músculo ao redor dos olhos, que forma pés-de-galinha
Os olhos se fecham levemente (ficam entreabertos)
As bochechas se levantam e as sobrancelhas se abaixam levemente
Sinais físicos e fisiológicos: a risada que ocorre durante um divertimento intenso produz movimentos corporais repetitivos e espasmos
5. NOJO
Há um impulso de se afastar do objeto. As pessoas tendem a virar a cabeça, se o alvo é visual e vomitar se é olfativo ou gustativo
O lábio superior se levanta o máximo possível. O lábio inferior também se ergue e se projeta levemente para frente. Surge uma fenda, que vai do redor das narinas até os cantos dos lábios, em forma de “u” invertido
As narinas se levantam e aparecem marcas de expressão do lado do nariz
Pés-de-galinha ficam visíveis ao redor dos olhos
6. SURPRESA
Os olhos se abrem o máximo possível e as sobrancelhas se levantam
Surgem rugas horizontais na testa
A boca fica aberta e o queixo caído
Na surpresa e admiração há uma fixação de atenção no objeto da emoção

7. DESPREZO
O queixo se eleva
A pessoa olha para o alvo da emoção como se estivesse enxergando-o por baixo do nariz
Os cantos dos lábios se apertam e um dos cantos da boca fica levemente levantado – essa é a expressão mais típica de desprezo

Galileu agradece ao ator Daniel Tavares pela participação no ensaio fotográfico

Outra possibilidade é a de que aquilo que fica armazenado no cérebro não é tão genérico, mas um acontecimento específico. Nesse caso, o medo seria desencadeado por uma situação concreta, como a ameaça de um objeto vindo em alta velocidade em nossa direção. Para tristeza, a perda de um ente querido.

Esses temas são inatos. Somente suas variações são aprendidas. Por exemplo: automóveis não faziam parte do ambiente dos nossos ancestrais. Um carro vindo em nossa direção não é um tema universal, mas uma variação.

Ekman descobriu que o aprendizado constante da espécie não explica, por exemplo, por que expressões faciais exibidas por crianças que nascem cegas são iguais a de crianças com visão normal. Também não consegue esclarecer por que alguns sentimentos provocam diferentes modificações fisiológicas. Foi o que levou o especialista à conclusão de que a herança evolutiva é a principal responsável pela configuração de nossas respostas emocionais.

Os sentimentos sobre os quais a ciência tem mais conhecimento são a tristeza, o medo e a raiva, pois são os que podem causar maiores prejuízos ao homem. O objetivo de sinalizar tristeza, por exemplo, seria atrair o apoio de outras pessoas.

A morte de um filho foi identificada como um tema universal para o sentimento. Nenhum outro evento causa desalento tão intenso e prolongado, segundo Ekman.

A raiva adverte os outros de que estamos contrariados. Se uma pessoa é a causa da fúria, nossa expressão sinaliza que tudo o que ela fizer será desagradável. A mensagem é clara: afaste-se. A situação mais efetiva para desencadear a ira é a interferência física.

A raiva é útil para reduzir o medo e fornecer energia para lidar com a ameaça. Também pode ser uma escapatória à depressão. O desapontamento sobre como as pessoas agem em relação a nós também pode causar rancor.

E é geralmente no parceiro em quem acabamos descontando toda nossa ira. Mas não é por implicância. O motivo é evolutivo: é mais seguro demonstrar nossa raiva para alguém íntimo, cuja reação será mais previsível.

O medo nos protege. Sinalizá-lo também pode servir para alertar os outros do perigo. Ekman explica que nossa vida pode ser salva porque somos capazes de responder instintivamente a ameaças de ferimento. Esse é o tema que desencadeia todos os “gatilhos” do medo. As variações podem ser qualquer coisa que aprendemos que pode nos machucar. Estudos sugerem que a evolução favoreceu duas ações diferentes para os momentos de temor: fugir ou reagir. A ameaça imediata leva a uma ação rápida, como “congelar-se” ou fugir, enquanto a iminente aumenta a vigilância e a tensão muscular.

Caretas vitais

Pode parecer frescura, mas achar algo asqueroso é uma proteção evolutiva. É o que nos mantém longe de atividades perigosas, como comer algo podre, ou de comportamentos socialmente reprováveis.

O mecanismo central do nojo envolve a ingestão de algo considerado ofensivo e infectado – contaminação oral. Esse provavelmente é o tema universal do sentimento, ainda que haja grandes diferenças culturais sobre o que é uma comida repulsiva – não há nenhum problema em comer cachorro e insetos na China, por exemplo.

O mais potente gatilho para o nojo são excreções corporais. O sentimento se desenvolve entre 4 e 8 anos de idade. Ekman cita uma pesquisa que distinguiu o nojo pessoal, ou aprendido, do central. Foram listados quatro grupos de temas aprendidos: o estranho, a doença, a tragédia e a moral.

Para saber qual o mais recorrente, o psicólogo pediu para estudantes descreverem a experiência mais nojenta que alguém poderia vivenciar.

A contaminação oral foi descrita somente por 11% dos entrevistados. O tema mais citado (62%) foi o moral – a maioria referente a ações sexuais reprováveis, como transar com crianças.

Os outros exemplos (citados por 18%) foram de repulsão física, como ver um corpo repleto de vermes. Os resultados sugerem que, para os adultos, a repulsa moral é mais forte do que o tema central da incorporação oral.

As emoções, portanto, estão longe de ser meros chiliques, ou acessórios, que poderíamos remover a qualquer momento, sem maiores prejuízos. São mecanismos evolutivos fundamentais à sobrevivência da nossa espécie.”As pessoas não comeriam se achassem nojento o único alimento disponível. Não fariam sexo sentindo medo ou raiva. O desespero e a falta de alegria podem levar as pessoas até mesmo a tirar as próprias vidas”, resume Ekman.

Macacos também reconhecem expressões
divulgação
Herança
Macacos resus exibem fisionomia amigável (acima) e de ameaça
Os homens não são os únicos capazes de relacionar sons a expressões faciais. Um estudo publicado em junho na revista científica “Nature” mostra que macacos resus têm a mesma habilidade.

A descoberta sugere que herdamos a aptidão de nossos ancestrais primatas. Os pesquisadores perceberam que esses macacos produzem uma variedade de sons em resposta a diferentes situações. Cada um com uma expressão facial relacionada.
Animais em perigo, por exemplo, emitem um som agudo, ao mesmo tempo em que abrem bem os olhos e a boca e abaixam as orelhas.

Participaram do experimento 11 primatas adultos. Primeiro foram exibidos aos animais vídeos silenciosos com macacos em situações amigáveis e de ameaça. Depois, diante das imagens, eles ouviram uma pista sonora correspondente a uma das expressões. Ao escutar o som, os símios identificaram a expressão facial correspondente. Crianças que ainda não aprenderam a falar reagem de forma similar.

 

Fernanda Colavitti